domingo, 14 de abril de 2013

''A Grande Mudança - Reconectando o mundo...'' - de Nicholas Carr


CHAMA E FILAMENTO (Epílogo)NicholasCarr
Uma das maiores invenções do homem também foi uma das mais modestas: o pavio. Não sabemos quem foi que se deu conta pela primeira vez, há milênios de anos, de que o fogo poderia ser isolado na ponta de um pedaço de pano torcido e alimentado sistematicamente, por meio de uma ação capilar, por um reservatório de cera ou óleo, e a descoberta foi, como diz Wolfgang Schivelbusch em Disenchanted Night, “tão revolucionária para o desenvolvimento da iluminação artificial quanto a roda na história do transporte”. O pavio domesticou o fogo, permitindo seu uso com precisão e eficiência muito superiores ao que era possível com uma tocha de madeira ou um feixe de galhos. No processo, ajudou a domesticar-nos também. E difícil imaginar a civilização progredindo para onde está hoje sob a luz das tochas.
O pavio também mostrou ser uma invenção incrivelmente resistente. Con­tinuou sendo a tecnologia predominante de iluminação desde os primórdios da história até o século XIX, quando foi substituído primeiro pela lâmpada a gás e depois, de forma mais decisiva, pela lâmpada incandescente de Edison, alimentada pela eletricidade com o luminoso filamento de metal. Mais limpo, mais seguro e até mais eficiente que a chama que substituiu, a lâmpada elétrica foi acolhida alegremente nas residências e escritórios do mundo inteiro. Mas, junto a seus muitos benefícios práticos, a luz elétrica também trouxe mudanças sutis e inesperadas para o modo de vida das pessoas. A lareira, a vela e a lâmpada a óleo sempre foram o ponto focai das moradias. O fogo era, nas palavras de
Schivelbusch,”a alma da casa”. As famílias reuniam-se à noite em um cômodo central, atraídas pela chama trêmula, para conversar sobre os acontecimentos do dia ou passar o tempo juntas de alguma outra forma. A luz elétrica, junto com o aquecimento central, dissolveu essa longa tradição. Os membros da família começaram a passar mais tempo em outros cômodos à noite, estudando, lendo ou trabalhando sozinhos. Cada pessoa ganhou mais privacidade e um senso maior de autonomia, mas a coesão da família enfraqueceu.
Fria e uniforme, a luz elétrica não tem o encanto da chama. Não era hipnótica ou calmante, mas estritamente funcional. Transformou a luz em mercadoria industrial. Em 1944, um memorialista alemão, obrigado a usar velas em vez de lâmpadas elétricas durante os ataques aéreos noturnos, ficou pasmo com a diferença. “Notamos”, escreveu ele, “à luz ‘mais fraca’ da vela, que os objetos têm um perfil diferente, muito mais nítido – ela dá a eles uma dimensão de ‘realidade’”. “Essa dimensão”, continua ele, “perde-se sob a luz elétrica: os objetos (aparentemente) são muito mais claramente visíveis; mas, na verdade, ela os achata. A luz elétrica fornece brilho demais e, por isso, as coisas perdem corpo, contorno, substância – em resumo, sua essência”.
Ainda somos atraídos pela chama na ponta de um pavio. Acendemos velas para criar um ambiente romântico ou calmante, para marcar uma ocasião especial. Compramos objetos ornamentais feitos para parecerem candelabros com as lâmpadas em forma de chamas estilizadas. Mas não sabemos mais como era quando o fogo era a fonte de toda a luz. O número de pessoas que se lembra da vida antes da chegada da lâmpada de Edison resumiu-se a umas poucas e, quando elas se forem, levarão consigo toda a lembrança remanescente daquele mundo pré-elétrico anterior. O mesmo acontecerá, em algum momento próximo ao final do século XXI, com a lembrança do mundo que existiu antes do computador e da Internet se tornarem comuns. Nós é que vamos ser aqueles que levaremos conosco essa lembrança.
Toda mudança tecnológica é uma mudança de geração.Todo o poder e todas as conseqüências de uma nova tecnologia só se tornam visíveis depois que aqueles que cresceram com ela se tornam adultos e começam a empurrar seus pais antiquados para a periferia. A medida que as gerações mais velhas morrem, levam consigo o conhecimento do que foi perdido quando a nova tecnologia chegou, e fica só a impressão do que foi ganho. E dessa forma que o progresso disfarça suas pegadas, refazendo perpetuamente a ilusão de que o lugar onde estamos é aquele onde devíamos estar.

O título completo da obra é: “A Grande Mudança – Reconectando o mundo, de Thomas Edison ao Google”. O autor: Nicholas Carr. O livro trata da revolução das TIC e a cloud computing e faz uma comparação interessante com o que ocorreu com a eletricidade e o que está acontecendo atualmente com a computação na era da Internet (mesmo considerando as diferenças entre as tecnologias). Uma tendência forte evidenciada nos dias de hoje é o uso da computação em rede como um serviço.



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